Como prevenir problemas na gravidez?
Entrevista com o ginecologista Wilson Ayach, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Maio é o mês das noivas e das mães. Se você pensou em aproveitar o astral do mês para "encomendar" um herdeiro, é bom saber que antes de ficar grávida é preciso tomar alguns cuidados. Para quem já tem diabetes ou quem quer cortar o risco de desenvolver diabetes gestacional, o ginecologista Wilson Ayach, professor adjunto do departamento de gineco-obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, especializado no tratamento de gestantes diabéticas, dá algumas dicas.
Wilson Ayach - "Didaticamente pode-se dividir a associação diabetes e gestação em dois grandes grupos: o diabetes mellitus prévio à gestação e o diabetes gestacional. Essa classificação tem muita importância porque permite orientar melhor a conduta tanto das próprias pacientes quanto da equipe de saúde.
A mulher que já tem o diagnóstico de diabetes mellitus prévio à gestação e que já faz algum tipo de tratamento farmacológico e/ou medicamentoso deve-se preparar para engravidar. Dentre outras medidas, destaca-se o controle rigoroso da glicemia antes mesmo de engravidar, porque a hiperglicemia no momento da fecundação relaciona-se a maiores taxas de abortamento e más-formações fetais. Isso implica maior necessidade de cuidados, o que requer consultas mais freqüentes, às vezes mais de uma vez por semana, para acompanhar a efetividade das medidas terapêuticas. Após a concepção, deve-se manter criterioso acompanhamento de mãe e filho durante toda a gestação. Em alguns casos, a internação hospitalar se impõe para que se alcancem os objetivos terapêuticos.
Todo o cuidado é necessário em função dos riscos. Reitero que a glicemia alterada aumenta a probabilidade de aborto, pode provocar más-formações no feto e, também, levar a seu crescimento exagerado, caracterizado por peso ao nascer maior do que quatro quilos (macrossomia). A macrossomia fetal, resultante da hiperglicemia, também se relaciona com maior prevalência de cesarianas e, depois do nascimento, com dificuldades respiratórias e icterícia neonatal. Na vida futura predispõe ao desenvolvimento de diabetes mellitus tipo II, hipertensão arterial e obesidade.
Para mulheres não diabéticas, existe o risco de desenvolver a doença durante a gestação. É o chamado diabetes gestacional, que à exceção de abortamento e más-formações, apresenta riscos semelhantes ao do diabetes prévio para a mãe e o bebê. O diabetes gestacional é mais comum em mulheres obesas, que tenham parentes de primeiro grau diabéticos, que tenham tido abortamento, más-formações fetais e/ou filhos com peso ao nascer igual ou superior a quatro quilos. Por isso, o melhor conselho é controlar o peso antes e durante a gravidez, ficar de olho na alimentação e praticar atividades físicas. O conselho deve ser seguido antes mesmo de engravidar.
Diante disso, é preciso estar atento durante o pré-natal. Todas as mulheres sem diagnóstico prévio de diabetes devem ser submetidas aos testes de rastreamento e diagnóstico do diabetes durante a gestação. Caso o diagnóstico seja confirmado, o tratamento não medicamentoso (dieta alimentar, exercício físico e apoio psicológico) deve ser iniciado imediatamente. A monitorização da glicemia capilar durante a gestação deve ser, a exemplo do que ocorre no diabetes prévio à gestação, rigoroso.
É preciso destacar, contudo, que não é fácil aceitar o diagnóstico do diabetes e, essa negação manifesta-se, muitas vezes de forma inconsciente, na recusa em aderir às medidas terapêuticas, como a dieta alimentar e prática de exercício físico. Inconscientemente funciona da seguinte maneira: "se não tenho diabetes posso comer de tudo, para que fazer dieta".
Em todos os casos da associação do diabetes à gestação, em não se obtendo controle da glicemia com as medidas não farmacológicas, pode-se utilizar insulina e/ou metformina.
Além disso, embora haja reversão do diabetes gestacional, na maioria dos casos, após o parto a mulher que teve diabetes na gravidez tem risco aumentado de desenvolver diabetes tipo 2 no futuro e de ter recorrência do gestacional em gravidez futura."
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